Como foi o processo de entender meu chamado para missões

É bem comum ouvir: ah, missões não é pra mim porque não sou muito simpático e despojado, prefiro servir na igreja; ah, missões não é pra mim porque tem que ter chamado e eu ainda não descobri o meu; ah, missões não é pra mim porque eu quero focar na minha carreira e estudar, vou ser mais útil contribuindo financeiramente. Ainda mais para mim, que vivia dizendo tais coisas. Ficava pensando qual seria melhor desculpa pra poder fugir de missões quando ouvia falar a respeito. Mas não me perguntava porque eu ficava tão incomodado quando ouvia sobre missões. Segundo minha terapeuta, se algo me incomoda, talvez seja porque ainda não é uma situação muito bem resolvida pra mim.

Minha jornada até finalmente fazer as pazes com meu chamado missionário não é tão excepcional assim, não possui nenhum evento místico no qual ouvi a voz de Deus me dizendo pra ir para Letônia, por exemplo. Foi algo gradual e penoso de certa forma. Digamos que eu fui/sou um pouco teimoso e isso acabou deixando as coisas mais complicadas do que já eram. Tudo começou quando eu era um pequeno e adorável menino, lembro que todos os dias antes de ir dormir eu orava e sempre pedia pra Deus abençoar os missionários. Não lembro de ninguém me dizendo diretamente para orar pelos missionários, a não ser em alguma campanha de missões ou outra, mas sempre era algo meio genérico. Acho que certa forma, meu pedido era genuíno, até porque eu era apenas uma criança. Por ter nascido em um lar cristão, de certa forma acabei crescendo dentro da igreja. O tempo foi passando e vez ou outra que ouvia falar sobre missões eu pensava que eu não poderia ser um missionário porque eu tinha vergonha e não sentia esse chamado para minha vida.

Sempre fui bem inteligente, o famigerado nerd, tanto na escola quanto na igreja, vivia querendo aprender novas coisas e saber de tudo. Além disso, eu era muito envolvido na igreja, o típico menino querido que estava sempre participando e ajudando nas programações. Diante desses fatos, para mim fazia todo sentido dizer que meu chamado era pra estudar, trabalhar e servir na igreja. Fala sério, parecia que eu tinha nascido pra fazer aquilo! E na verdade, eu realmente gostava muito de fazer parte da igreja, a única coisa que não se encaixava era essa tal de missões, que vivia me incomodando e me fazendo duvidar das escolhas que estava tomando. Nos congressos que participei quando era adolescente, por exemplo, fugi de TODAS as oficinas relacionadas a temática missionária, fiz até dança e expressão corporal, mas nada de missões. Tá amarrado!

Ai veio a época da faculdade e pra minha felicidade todo o processo pareceu um milagre divino. Primeiro, fiz um vestibular de inverno e não passei por 1,0 ponto, depois fui aprovado em uma universidade federal tecnológica, mas por ser em uma cidade mais longe meus pais não tinham condições de me bancar porque o curso era integral. O vestibular que prestei na universidade estadual na cidade vizinha foi uma decepção, eu até fui bem, mas não o suficiente para passar. O último fio esperança estava no programa de bolsas oferecido pelo governo, o qual acabei passando apenas na segunda opção curso, que não era bem o que eu queria, mas acabei fazendo pra não perder um ano. Acabou que minha primeira opção de curso contava com apenas duas vagas, que não foram preenchidas na primeira nem na segunda chamada. Mas então, quando as vagas abriram a lista de espera, eu pude me inscrever e fui selecionado. Sério, eu não esperava de jeito nenhum que eu fosse conseguir aquela vaga, com certeza foi Deus. O curso que eu queria, oferecido na modalidade noturna com uma bolsa de estudos. Bingo! Deus não quer que eu seja missionário, se não, nada disso teria dado certo, foi a resposta que eu estava procurando. Entretanto, esse foi só o começo, muita coisa estava por vir.

Durante a graduação, acabei me afastando da igreja por uns dois anos, devido a vida nova, em uma cidade nova e sem muitos amigos, minha frequência e envolvimento era bem irregular. Por fim, acabei voltando a frequentar uma igreja e quando eu menos esperava, lá estava ele, o chamado para missões, mais forte do que nunca. Eu argumentava que nunca iria largar o curso que Deus tinha me dado para ser missionário sabe-se lá onde, isso não fazia sentido para mim. Dizia que eu poderia muito bem ser missionário onde eu estava, que podia servir a Deus na igreja que frequentava e tentar evangelizar as pessoas próximas a mim. Essa história de abrir mão da graduação que era meu sonho de infância parecia loucura.

Até então, eu tinha participado de pouquíssimas experiências missionárias, até porque viva fugindo delas. Foi nesse período que uma prima minha, que era muito próxima de mim, e que eu a amo muito até hoje, foi ser missionária em um projeto na capital. Nesse projeto havia uma escola de missões, que ela, depois de um ano meio insistindo, conseguiu me convencer a participar. E foi aí que o negócio pegou pra mim. Foram as duas semanas mais sofridas da minha vida! Fiquei várias noites sem dormir por causa da cama dura e dos roncos ensurdecedores que eram incessantes. Sofri com o calor insuportável daquele verão sem um único ventilador, principalmente na semana prática quando fomos para região litorânea. Fui picado por uma legião de mosquitos. Isso sem falar no desgaste emocional e espiritual. Mentalmente, eu estava em um dos meus piores momentos. Resumindo, a experiência tinha tudo pra comprovar que eu realmente não tinha chamado nenhum para missões, exceto por um único detalhe: EU AMEI! Não faz sentido se pensar no quanto sofri, mas quando penso nessa escola de missões eu lembro de estar em êxtase, foi definitivamente uma das coisas mais legais que já fiz na vida. Eu tinha um chamado missionário e tinha chegado a hora de aceita-lo, simples assim!

Quando participei dessa escola de missões ainda faltava dois anos para me formar, mas como eu finalmente tinha aceitado entendido meu chamado missionário, estava mais disposto a largar a universidade do que nunca, só precisa saber quando e onde ir. Foi aí que ouvi um belo de um: AINDA NÃO. O que? Como assim ainda não. Eu fiquei os últimos anos lutando contra esse chamado e agora que o aceitei tenho que esperar. Eu fiquei pistola hein! Não fazia nenhum sentido pra mim, mas ok, resolvi esperar e continuar minha graduação. Com o tempo entendi que eu realmente precisava esperar, que foi um tempo em que Deus pode tratar algumas coisas em minha vida e eu consegui cuidar melhor da minha saúde mental, que estava só o bagaço.

Bem, depois de muita terapia, um TCC e muita briga com Deus, havia chegado a hora. Eu estava formado, empregado e com muito mais maturidade espiritual e mental que dois anos atrás. Entendi que era hora de começar a trilhar meu caminho no campo missionário.

Nota: eu entendo que todos somos chamado para levar a palavra de Deus e que de certa forma todos somos missionários, podendo fazer missões no seu local de trabalho, na sua vizinhança ou na África, mas quando falo sobre meu chamado missionário, estou me referindo a servir como missionário voluntário de tempo integral em outro país.

Decidi fazer um curso de inglês para missões na Inglaterra com duração de 6 meses. Era perfeito, eu iria aperfeiçoar meu inglês e ter uma amostra de como é ser um missionário em outro pais, já que o curso também contava com trabalho social e evangelístico. Como não possuía os recursos financeiros e precisaria ir no início do segundo semestre, decidi que seria melhor deixar para próximo ano por ser mais fácil de organizar os documentos e me programar financeiramente. Eu estava muito animado, era tudo que eu queria. Sempre fui fascinado por inglês, pela Inglaterra e por missões, era o combo perfeito. Mas, como é sabido por todos, a única vontade que é realmente boa, perfeita e agradável é a de Deus. Sendo assim, houve uma mudança de planos que não esperava. No início do ano em que eu iria fazer esse curso de inglês para missões, recebi um e-mail dizendo que justamente nesse ano eles não iriam oferecer o curso e que eles sentiam muito por isso. Eu fiquei devastado. Tinha feito mil planos, criado uma expectativa imensa e foi tudo por água abaixo. Até quis ficar pistola com Deus, mas sabia que no fundo, tudo estava acontecendo conforme o que era pra ser.

Desilusões a parte, comecei a procura por uma nova oportunidade de experiência missionária. Na verdade, esse mesmo curso que iria fazer, poderia ser feito na África do Sul, Estados Unidos, Nova Zelândia, Suíça, Canadá e na própria Inglaterra, o problema estava na duração, que era de apenas 3 meses sendo que o custo era praticamente o mesmo que seria para 6 meses. Foi então que resolvi começar a procurar algo que não tivesse a ver com inglês e que fosse apenas missionário, até porque havia feito aulas particulares e melhorado bastante . Lembro de ter sentando na frente do notebook em um sábado à tarde e devo ter mandado e-mails para agências e instituições missionárias de pelo menos uns quinze países diferentes. Tinha feito planilhas para ver a datas, os preços e a localidade para poder analisar melhor as possibilidades, quando um dos últimos e-mails que havia enviado foi respondido em menos de 15 minutos, o que considerei incrível levando em conta o fuso horário e que era sábado. A resposta veio da Letônia, ou melhor, de Curitiba. Eles estavam aqui para dar um treinamento na base do Brasil e fazer a divulgação do programa o qual eu estava interessado. Pode uma coisa dessas? Não podia crer no que estava acontecendo. Eu fui da decepção, por terem cancelado o curso na Inglaterra, pra extrema alegria. Continuamos a trocar alguns e-mails e as coisa pareciam se encaixar muito bem, as datas, o preço, o visto. Que reviravolta, não é mesmo?

No mesmo fim de semana decidi falar com o pastor de minha igreja e confesso que estava um pouco receoso porque não tinha uma relação muito próxima com ele. Mesmo sendo bem ativo na igreja, digamos que eu poderia parecer um pouco rebelde por conta de algumas das minhas opiniões a respeito de determinadas coisas na igreja e na sociedade em geral, mas no fim fui surpreendido por ele, que me apoiou e disse que eu teria também o apoio da igreja. Fantástico! Eu estava perplexo como Deus tinha feito as coisas acontecerem. Nem em meus sonhos mais malucos eu imaginaria ir pra a Letônia para fazer missões, até porque eu nem sabia exatamente onde ficava esse país. Ah, a maneira como Deus nos surpreende é tão linda.

E esse foi só o começo da jornada. Muita coisa aconteceu depois de disso tudo, e olha que neste momento que estou escrevendo, ainda falta menos de três meses para eu embarcar em um avião com destino a Letônia. Tenho certeza que ainda tem muito o acontece, e espero poder compartilhar essas experiências. Sei que Deus tem feito coisas maravilhosas em minha vida. Todo o processo que contei foi longo e teve seus altos e baixos, mas apesar de tudo só consigo olhar para o cuidado de Deus em minha vida. Espero sinceramente poder ser usado por Ele para poder abençoar muitas vidas e também ser abençoado. Não me considero muito especial ou melhor do que as outras pessoas, pelo contrário, ainda questiono porque eu? Sendo que sei de minhas falhas e limitações, mas creio Deus é capaz de fazer infinitamente mais do que posso imaginar, e é crendo nele que sigo tentando cumprir meu chamado.